Financiar a faculdade parece uma decisão simples quando a parcela do momento cabe tranquilamente no orçamento: no Fies, durante o curso, o estudante paga só um valor simbólico por trimestre. O problema é que essa parcela baixa não é a parcela real — é só a ponta do fio. A dívida inteira continua se formando por trás, e ela cobra a conta puxando dos dois lados, depois da formatura.

Fies e P-Fies não são a mesma coisa

O programa tem duas modalidades com regras de juros bem diferentes, e confundir uma com a outra muda completamente o planejamento:

  • Fies (modalidade 1) — financiado diretamente pelo governo federal, para famílias com renda per capita de até 3 salários mínimos (em 2026, com o salário mínimo em R$ 1.621, isso equivale a até R$ 4.863 por pessoa). Essa faixa tem juros reais zero: o saldo devedor só é corrigido pela inflação, sem taxa adicional.
  • P-Fies (modalidade 2) — operado por bancos privados (Caixa, Banco do Brasil e bancos regionais), para renda per capita de até 5 salários mínimos. Aqui os juros são de mercado, o que na prática costuma significar uma taxa efetiva de alguns pontos percentuais ao ano — bem diferente de "zero".

Antes de assinar qualquer coisa, confira em qual modalidade seu contrato está enquadrado. Um Fies "juros zero" e um P-Fies com juros de mercado geram parcelas finais completamente diferentes para o mesmo valor financiado.

O que você paga enquanto o curso não acaba

Durante a graduação, o compromisso mensal é baixo de propósito — a ideia é não competir com o orçamento da faculdade em si (material, transporte, moradia). O estudante paga apenas um valor trimestral simbólico, de até R$ 150, referente aos juros acumulados no período. Nenhum centavo do principal é amortizado nessa fase.

Isso é ótimo para não sufocar o orçamento agora, mas é exatamente o que engana muita família: quatro anos de curso com parcela quase invisível dão a falsa sensação de que a dívida também é pequena.

A carência de 18 meses: a fase de transição

Depois de formado, o estudante entra num período de carência de 18 meses. Nessa fase, o pagamento mensal ainda cobre só os juros — sem amortizar o saldo —, mas o valor já sobe, ficando entre R$ 150 e R$ 300 por mês. É o momento de usar esse intervalo para se organizar, porque ele existe justamente para dar tempo de a pessoa se estabilizar no mercado de trabalho antes de a parcela virar definitiva.

Passados os 18 meses, começa a amortização de verdade — parcela cheia, calculada sobre o saldo devedor total, por um prazo que costuma ser bem mais longo que o do próprio curso.

Como colocar isso no orçamento hoje, não depois

  1. Trate a parcela simbólica como um "fixo" real desde já. Mesmo sendo baixa, ela entra na categoria de gastos fixos do orçamento — não em "outros custos". Isso evita a surpresa de "de onde saiu essa conta" na hora de reajustar.
  2. Simule a parcela pós-carência com o valor total financiado. Peça ao próprio Fies (ou ao banco, no P-Fies) uma projeção da parcela final. Divida esse valor pela renda esperada do formando — se passar de 10-15% da renda projetada, vale reconsiderar o valor financiado agora, enquanto ainda dá para ajustar.
  3. Comece a reservar durante a carência, não depois dela. Os 18 meses de transição são o momento ideal para separar mensalmente a diferença entre o que se paga hoje (R$ 150-300) e o que se vai pagar na amortização plena — assim o salto não consome de uma vez um orçamento que ainda está se ajustando ao primeiro emprego.
  4. Revisite a simulação a cada reajuste do curso. Valor financiado, prazo e taxa podem mudar se o curso atrasar ou o contrato for aditado — o que estava projetado no primeiro ano pode não valer mais no último.

Financiamento estudantil não é uma decisão que termina na matrícula: ela some do radar por alguns anos e volta com força total logo quando a família menos espera, no início de carreira do filho. Planejar a parcela futura hoje, com números reais e não com a sensação de "é baratinho", é o que evita transformar uma conquista educacional em um perrengue financeiro adiado.